Aborda um tema polêmico – a
prostituição – de uma das maiores populações do mundo, a Índia (se não me
engano). Ao mesmo tempo fala de esperança, por que apresenta crianças e seus
possíveis futuros que pode ter uma passagem por escolas ou fora delas. O filme
é também um documentário e por isso desperta em quem assiste um tipo de
sensações de todos os tipos possíveis, saímos da alegria das crianças para a
tristeza da realidade e de repente estamos esperançosos que algo bom aconteça a
algumas delas, mas isso nem sempre é possível, como disse anteriormente
trata-se de um documentário. Ao amostrar a realidade nem sempre o filme agrada,
talvez por que na realidade não existam os finais pelos quais esperamos. O
filme é muito triste.
Logo nas primeiras cenas ouvimos
uma voz que fala com algumas crianças - é a voz da pesquisadora que por não
poder freqüentar esses bordéis a fim de tirar fotos das pessoas que vivem ou
aparecem nesse lugar, pede para que algumas crianças tirem essas fotos para
ela. Na verdade não apenas pede, ela
ensina como tirar essas fotos e cede as câmeras para as crianças. Mas, ao mesmo
tempo é possível perceber que as crianças já possuem algum talento, alguma
coisa que as faz tirar fotos mais que interessantes, possuem uma sensibilidade
que até assusta (isto para quem se interessa por fotografia).
As crianças, ao mesmo tempo em
que têm encontros com a pesquisadora, levam suas vidas como antes - nos bordéis
onde moram com suas famílias - mas só que com algumas modificações visitam o
zôo (vêem os animais que também são maltratados, como tudo nesse lugar) e até
vão à praia (os passeios são uma espécie de hora de lazer onde podem realmente
ser elas mesmas), tiram fotos por lá também. As crianças passam o filme todo
com “suas” câmeras fotográficas na mão, e sempre tirando fotos.
O que mais me impressionou /revoltou neste
filme foi que apesar de suas mães serem prostitutas, as crianças eram
obedientes a elas, principalmente as meninas que teriam seus fins iguais ao das
mães, muitas vezes por imposição destas. As crianças não viam outra solução,
alem da prostituição apesar de freqüentarem a escola, nem suas famílias. Ao
longo do filme, em seus depoimentos elas falam da realidade em que vivem com
sofrimento e ao mesmo tempo com uma certa normalidade. Parecem que já estão
acostumadas com o fim que as espera.
Meu olhar pode ser um tanto
ocidental, infantil ou até mesmo preconceituoso, mas saber que crianças em
qualquer lugar do mundo sofrem esse tipo de tortura, que além de física é
também psicológica, não apenas me entristece ou revolta, ou me faz escrever, me
incentiva a ter vontade de despertar. E não pretendo fazer isso sozinha. Talvez
por isso eu escrevo. Para que outros possam também se interessar e acima de
tudo tomarem consciência de um dos bens maiores que a humanidade têm – as
crianças e suas mentes – e não se dá conta. “Sementes bem regadas terminam em
árvores que produzem mais frutos”. Apesar dessa frase que pode ser entendida
como simples ou até mesmo sem muita credibilidade, eu realmente comecei a ter
consciência de que não posso apenas fazer uma pesquisa que nada devolva a
alguma escola ou comunidade, simplesmente por que existe um mundo que poucos
percebem ou respeitam, a infância. E como sou uma das pessoas que percebem e
sinto que também sou responsável pelo que pode vir ou não a acontecer pretendo
voltar algum tempo de minhas pesquisas para essa área que a partir da leitura
desse filme tornou-se um dos temas que pretendo observar com mais atenção.
Ao longo da história as crianças
foram tratadas como pequenos adultos ou treinadas para serem / ocuparem
determinadas funções na vida adulta. Muitas eram tratadas como seres sem
vocação, pessoas que fariam o que um adulto mandasse.
Mas a partir de algumas
observações e leituras percebi que existe um “mundo” diferente (que é o
raciocínio de muitas crianças e que não é o mesmo para todas) que apesar de
ainda estar em formação já apresenta algumas características e/ou inclinações
que na maioria das vezes não são estimuladas nas crianças que pertencem as
chamadas comunidades populares. Quero dizer que além de criatividade e
capacidade de aprender, as crianças podem desde pequenas ou nesse período que é
a infância, apresentar predisposições/ talentos que se bem estimulados podem
torná-las adultos satisfeitos com suas profissões.
Pude perceber nesse filme que as
crianças não tem suas vontades atendidas nem mesmo quando não se trata de
caprichos. Quando querem ter futuros diferentes dos de suas famílias em vez de
serem atendidas e levadas para escolas que lhes dariam chances de ter essas
oportunidades, as famílias ( que determinam suas vidas e ainda tomam decisões
por elas como se não significassem muito) as retiram da escola por motivos
egoístas e que no fim só trazem diferença à vida das crianças, por que os
adultos já estão em estado de total desgraça/abandono que nem mesmo a escola
conseguiria recuperá-los.
Esse filme/documentário consegue
mostrar a realidade de um grupo de crianças que apesar de viverem em um lugar
de horror, conseguem sorrir e guardar valores de uma infância que apesar de não
ser respeitada (como deveria ser) ao mesmo tempo parecem apresentar a presença
de respeito ( o respeito que as meninas tem por suas mães e como são obedientes
a elas e um dos meninos que não foi para escola por que a família não
permitiu). Além disso outro ponto marcante é a cortina que separa o quarto onde
a mãe, das crianças abordadas nesse filme, trabalha do espaço onde elas ficam
esperando que o “trabalho” acabe.
A relação que as crianças têm com
suas famílias é comum, como em outras famílias que poderíamos considerar
normais, sentem falta quando se afastam (quando finalmente são aceitas nas
escolas que a pesquisadora - que tanto se esforça - consegue arranjar para
elas).
Não descrevo o filme ou apenas
faço um resumo por não poder fazer isso nesse momento. Assisti a poucas horas e
ainda me encontro sob o impacto que as sensações que o filme aflorou ( trouxe
para fora de mim, nas palavras).
O choque é um pouco maior quando
misturam em um mesmo espaço, realidade e fotografia, tudo isso com um fundo de
música indiana, música que desperta sentimentos que acalmam e agitam. Tudo
nesse filme é parte de um paradoxo (ultimamente tenho usado bastante essa
palavra). Respeito X falta de respeito;
