Quando Huxley escreveu Admirável
Mundo Novo, parece que estava prevendo o nosso século (2010). A “fábrica de
gente” que ele relata em detalhes logo no primeiro capítulo não tem lá muita
diferença dos laboratórios de fertilização de hoje, com a diferença que as
denominações para as experiências científicas de hoje não usam aqueles nomes
utilizados no livro, que é mais ficção científica do que realidade. Mas, outra fábrica pode ser comparada à do
livro, a escola. Atualmente produzimos formas de pensar de um jeito que os
sujeitos não participam da sociedade, mas, fingem participar de um mundo que
não lhes pertence. Como os demais figurantes de Admirável Mundo Novo, existem
atualmente pessoas para desempenhar algumas funções em que o raciocínio não
precisa ser muito utilizado e em outras funções pessoas que se valem justamente
do raciocínio para desempenhar papéis num mundo competitivo onde a razão é mais
que um patrimônio, é a maior forma de vencer os demais.
Em algumas partes do livro, a
partir do terceiro capítulo, o autor com certa sutileza começa a criticar o
ensino que é oferecido aos habitantes desse “mundo”, questionando que não
aprendem a história nem lêem os livros antigos, que são proibidos.
A questão da coletividade é
abordada em todo o livro, mas, a partir do terceiro capítulo é possível
perceber que o autor (se eu não estiver errada) enfatiza a coletividade como
meio de regulação dos indivíduos. Não muito diferente do que ocorre hoje em
dia, quando a escola, a mídia, a sociedade em geral tenta estabelecer essa
lógica da igualdade por meio da coletividade, sendo que, por natureza o
indivíduo não participa de um grupo sem que se identifique com os demais
integrantes (a não ser quando é extremamente necessário o convívio).
Não fomos criados para viver em
sociedade, mas “inventamos” a sociedade. A sociedade é nada mais que uma
construção humana que também constrói as relações humanas, sendo que isso
ocorre sem que muitos percebam. Indivíduos repetem gestos e ações sem nem mesmo
se dar conta do que fazem e por que o fazem. Operários não sabem para onde vai
o produto que eles fazem e depois nem podem possuí-lo (fábrica nos terceiros
mundos onde os salários são tão baixos para os funcionários e o lucro é todo do
proprietário da fábrica). Mulheres continuam submissas quando são maioria e a
base que realmente sustenta a sociedade tanto física quanto materialmente
(capital). E isso tudo por causa de um sistema poderoso que conseguiu se
impor, a partir de um espaço que
consegue ultrapassar todos os limites que qualquer grupo social tente criar barreiras,
por que afinal todos precisam de educação, esse espaço é a ideologia presente
nos discursos dos representantes desse sistema: principalmente professores e
pessoas ligadas a educação, etc.
A questão da afetividade é outro
ponto abordado como instrumento de regulação, todos pertencem a todos, e são
afetivos. Em um mundo competitivo, como poderíamos ser afetivos? Dependendo de
como deve ser entendido o termo afetividade, o termo pode ser um aparato de
regulação, também.
Tudo depende muito da
significação atribuída a este ou aquele termo. E com base nesses significados é
construída e re-significada a utilização dos conceitos na sociedade em questão. Tudo não
passa de um jogo de poderes, onde o vencedor determina o que é bom ou ruim, o
que deve ser repetido ou corrigido, quem serão os melhores e os piores. Tudo
não passa de ilusão. Nem mesmo existem os significados, nós os criamos. E
alguns grupos, que não pertencem ao grupo que exerce influência na formulação e
divulgação do conhecimento, quando se apropriam apenas das significações dos
conceitos, julgam conhecer todo o conceito. O que é de grande valia, tanto para
os que detêm o poder, como para a empresa capitalista. Quanto mais fantoches,
melhor para todos, para a igualdade (que não existe) e para que tudo permaneça
se repetindo na mais completa harmonia.
Por que todo o meu pensamento vai
contra a ........ geral das formas estabelecidas ( não ouso escrever essa
palavra). E tudo que tento é inverter um quadro. E isso que eu faço, isso, sim,
é a desordem.
Esta forma de ver as relações
humanas e todo o resultado das não-reparações aos indivíduos que não foram
ensinados a pensar, mas passam pelas escolas, é refletida na sociedade. Sociedade
que não foi convidada a entender, questionar e criticar o que vê, ouve e lê.
Sociedade que foi pensada a alguns séculos atrás ( pelos ingleses) como mero
mercado consumidor. E até quando? Quando
realmente esse povo vai ser liberto?
Atualmente a população é
incentivada a ser igual a ELES, enquanto são vistas por ELES como os OUTROS.
População que imita e compra tudo o que ELES incentivam a ser usado, dito e
reproduzido (copiado).
Essa população é a representação
de uma gente que obedece a um senhor invisível (Mr. Capital).
Ainda que meu olhar seja
etnocêntrico, posso perceber que não existe a liberdade de representação de
vários grupos e sim a de um único grupo. Que se impõe aos demais tanto na
ideologia como na cultura, na educação, em todos os setores da sociedade.
Os demais repetem o que esse
grupo afirma, sem questionar.
Por que não foram treinados a
pensar, enquanto ELES foram.
Aqui, finalmente volto à
afirmação de meu estudo, a seleção que é feita na educação das “massas”. O que
é útil e o que não é útil ensinar. Por que uma disciplina deve fazer parte e
outras devem ficar de fora? Trata-se de uma questão de tempo, apenas?
Nada de espantoso que
esses pobres pré-modernos fossem loucos, cruéis e miseráveis. O seu mundo não
lhes permitia tomar as coisas ligeiramente, não lhes permitia serem sãos de
espírito, virtuosos, felizes. Com as suas mães e os seus amantes, com as suas
proibições, para as quais não estavam condicionados, com as suas tentações e os
seus remorsos solitários, com todas as suas doenças e a sua dor, que os isolava
infinitamente, com as suas incertezas e a sua pobreza, eram obrigados a sentir
violentamente as coisas. ( Huxley, 1946, 22)
